Amamentação um ato de amor


Materna em um dia de visita a um banco de leite

Por Claudiana Cabral

MMD nina seu filho de dois dias de vida. Pergunto o nome da criança e, sem retirar os olhos do bebê – como se ele fosse a coisa mais importante do mundo, e é – diz: “Marcos”. Ele está aninhado em seu colo com uma manta fina que contrasta com o ar frio do hospital, mas permanece quieto no calor do peito da mãe. Está mamando.

MMD é uma boliviana que, mesmo com apenas 17 anos, parece não temer o mundo. Diz, sorrindo, que seu primogênito é guloso. Seu mamilo direito está fissurado, noto um pouco de dor em seus olhos e comprovo no ligeiro contorcer de lábios. Ela tem seios fartos de leite e Marcos mama avidamente. A mãe buscou ajuda junto ao hospital Leonor Mendes de Barros, referência em lactação na região metropolitana da grande São Paulo, onde deu à luz. A enfermeira Zudalia Texeira Nunes pede que, ao terminar o aleitamento, coloque-o no berço e entre na sala ao lado: “não tenha pressa, quanto mais o bebê mamar, melhor”.

Depois de devidamente higienizadas e aparamentadas de touca e bata (no caso da mãe), entramos em uma sala reservada à coleta e ao armazenamento de leite materno. É dessa sala que sai o alimento para bebês que estão internados em unidades de terapia intensiva (UTI). É também o espaço destinado para que mães como MMD recebam suporte e orientações para uma amamentação bem-sucedida.

– Está doendo, reclama a mãe.

– É claro que está doendo, o bebê “pegou” errado. Ele tem de pegar a maior parte da aréola, mas como só pegou o bico, causou rachaduras. Além disso, devido ao excesso de leite, seus seios estão “empedrados” [ingurgitamento mamário].

A enfermeira explica que isso acontece porque as glândulas estão cheias de leite e isso causa dor. E continua: “conforme as glândulas são esvaziadas, a dor tende a amenizar”. Para ilustrar, ela retira de cima de um armário um manequim do tronco de uma mulher. No molde, o interior dos seios é representado por nódulos rígidos. Ela orienta MMD: “massageie a aréola com dois dedos e as mamas com a palma da mão em movimentos circulares e faça o esvaziamento manual [retirada do leite]”.

A enfermeira ainda recomenda que a mãe evite o contato da água quente com os seios, pois ela estimula a produção de leite. Em contrapartida, indica compressa fria para o alívio da dor. MMD tem tanto leite que ele é retirado com facilidade. Ela coloca-o em um recipiente dado pela enfermeira, que faz questão de explicar que a doação é voluntária, e para o leite ser aceito tem de atender a uma série de requisitos.

Quem pode doar?

Em outro ponto do hospital, converso com a enfermeira Joana Kuzuhara. Ela menciona os critérios para que uma mãe possa tornar-se doadora: “muita gente não sabe da importância da amamentação para uma criança, e que é possível doar leite materno”.

Segundo Kuzuhara, as mães-doadoras normalmente já tiveram do outro lado e já foram beneficiadas com doações de sangue, leite etc. Kuzuhara explica que o banco de leite atende às doadoras exclusivas – mães que estão com bebês internados têm prioridade. A mãe retira o leite, que fica armazenado até o momento de ser ofertado ao seu bebê.

Quando o bebê recebe alta, a mãe pode escolher entre levar o excedente ou doar para outras mães. Geralmente elas decidem pela doação. As doadoras externas são mães que retiram o leite em casa, doando o excedente. Jamais uma mãe que não amamente seu filho poderá doar, o filho sempre tem prioridade. Toda mulher saudável que não esteja medicada é uma doadora em potencial.

Diagnóstico médico

Apesar de o Brasil ter a maior rede mundial de bancos de leite, sendo São Paulo a maior rede estadual-mundial, há défice de volume para atender a demanda de prematuros com baixo peso e dos bebês internados nas UTIs neonatal ou que requerem cuidados especiais (bebês que estão impossibilitados de mamar direto da mãe).

O centro de lactação, mais conhecido como banco de leite, não é somente um espaço de coleta de leite e armazenamento. “Damos apoio para que a mãe consiga amamentar com sucesso até o sexto mês e dar prosseguimento à amamentação. Procuramos também solucionar as dúvidas sobre aleitamento, pois somente uma mãe que amamenta com sucesso seu filho poderá vir a ser doadora. Porém, muitas vezes, as mães com bebês internados têm o volume de leite diminuído por razões emocionais, uma vez que a situação de ter um filho recém-nascido internado é muito difícil. Justamente no momento em que o bebê mais precisa, a quantidade está pequena. Trabalhamos para que a mãe volte a produzir mais. Enquanto isso, complementamos com leite do banco. Infelizmente, temos que escolher o bebê que receberá a doação, e o critério adotado é a ordem de prioridade. Além dos bebês internados, adultos com imunodeficiência também solicitam o colostro, que nesse caso atua como medicamento, mas nem sempre conseguimos atender à demanda”, informa a coordenadora do banco de leite, Dra. Maia José Guardia Mattar.

Ela afirma ainda que a amamentação é uma ação de grande impacto e baixo custo, que visa à redução da mortalidade infantil. Há vantagens também para a mãe, como proteção preventiva contra o câncer de mama, ovário e endométrio, osteoporose, diabetes e artrite.

A importância do leite materno e da doação

“Acho que existe uma falha de informação, pois muitos acham que o leite materno é igual a qualquer outro leite, mas não é. O leite humano é o único alimento capaz de suprir todos os nutrientes na quantidade exata que o bebê precisa. Até os seis meses de idade, o bebê não tem condição de produzir seus próprios anticorpos, daí a necessidade de amamentá-lo para que ele fique protegido. Se ele for prematuro, mais do que alimento, é um tratamento. O que para mulher é leite, para o bebê, principalmente os internados em unidade neonatal, é vida. Mesmo o leite controlado – todo leite que recebemos das doadoras externas é pasteurizado e perdem de 15% a 20% de seus nutrientes – é superior e preferível a outros tipos de leite. Brincamos que, assim como todo banco tem seu cliente preferencial, aqui também temos o nosso. Ele não fala, mas é muito exigente”, enfatiza a Dra. Maria José.

Você sabia?

  • O leite materno muda de sabor a cada mamada e ao longo dela, conforme a alimentação da mãe. A amamentação é considerada a primeira educação alimentar do bebê e por meio dela ele começa a perceber sabores. Por volta do sexto mês, quando vai receber a dieta com papas de frutas e salgados, ele já experimentou sabores diferentes, facilitando assim sua adaptação. Enquanto outros tipos de leite têm o mesmo sabor do início ao fim, o seu tem diversos sabores.
  • Sugar o peito é um excelente exercício para o desenvolvimento da face do bebê, pois auxilia no desenvolvimento da dentição, da fala e da respiração.

Passos para ser doadora

  • Estar amamentando;
  • Ter leite excedente;
  • Não estar medicada;

Localizar o banco de leite mais próximo de sua residência. O hospital informará todas as regras para retirada e armazenagem do leite e providenciará a coleta.

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