
Por Claudiana Cabral
Controlar o esfíncter não é um bicho de sete cabeças
Esfíncter é um músculo que controla a abertura e o fechamento de um determinado orifício. Entre outros esfincteres, o ser humano possui o uretral e o anal, responsáveis pela eliminação da urina e das fezes. Controlá-los é mais uma etapa no desenvolvimento da criança.Para que isso aconteça de forma saudável é importante que os pais observem se a criança está preparada para o desfraldamento.
Artur e o penico
Filho de Ângela Maria da Silva, Artur, de 3 anos, não gosta de penico. A família investiu em alguns modelos, mas não teve jeito. A conversa com o filho para que ele comunicasse as suas vontades também não surtiu efeito. Apesar das tentativas, a mãe nunca pressionou o menino: “Ele ficou quase 1 ano para tirar a fralda, se incomodava em ficar molhado, mas não pedia para ir ao banheiro. No começo do ano ele voltou à ‘escolinha’; com ajuda das educadoras foi fácil, ele pede, vai até sozinho. Quando as escapadas acontecem, ele fica envergonhado. Prestar atenção à alimentação dele (Artur) me ajuda a identificar suas necessidades.”
Chegou a hora de tirar a fralda
Para a médica pediatra Honorina de Almeida, cada criança tem seu tempo. Embora algumas crianças atinjam esse processo aos 3 anos não há uma regra: “Os pais não devem ter pressa, o desfraldamento deve ser iniciado após a criança apresentar sinais de que está pronta.”
Veja como identificar se chegou o momento de desfraldar a criança:
- Se expressa curiosidade – seja verbalizada ou não – pela forma como os pais usam o banheiro.
- Se mostra interesse em usar roupas íntimas.
- Se tem uma regularidade na evacuação, por exemplo, se fica seca por mais de três horas.
- Se avisa quando fez cocô ou xixi.
A partir desses sinais, os pais podem traçar estratégias. A pediatra Honorina prescreve algumas abordagens que podem facilitar o percurso:
- Converse sobre o assunto com a criança. Se achar mais fácil, utilize um livro infantil.
- Combine um período em que ela ficará sem fralda. Prepare a casa: retire os tapetes, se necessário. A maioria das crianças percebe melhor o processo da saída da urina quando fica sem fralda.
- Leve-a para comprar calcinha/cueca. Proponha saírem para comprar o “peniquinho”. Deixe que ela participe da escolha. Converse sobre a função do penico.
- Sugira um período no dia para sentar no penico. Escolha um momento adequado a partir da rotina da criança. Por exemplo, após o café da manhã.
- Se ela não fizer nada, brinque de colocar um pouco de água no penico e deixe que ela jogue no vaso sanitário e dê a descarga, se quiser. Aproveite para explicar sobre a importância de lavar as mãos.
- Comemore cada sucesso da criança, mas sem escândalos (para não criar uma expectativa além do necessário e para que ela não se frustre quando não obtiver sucesso). Deve-se premiar a criança? Segundo a psicóloga Maria Alice Lima, não: “Usar o banheiro é mais um passo para autonomia, não é preciso presentear. A criança já está ganhando com o fato de poder cuidar mais de si. Pais e filhos ganham mais se fizerem disso um evento gostoso.”.
- O processo costuma ser parecido para meninos e meninas. Porém, as meninas tendem a largar a fralda mais cedo do que os meninos. No caso delas, os desafios são ensiná-las a fazer a higiene da maneira correta (passando o papel higiênico da vagina para o ânus). Já os meninos, em uma primeira fase, devem aprender a usar o vaso sanitário sentados, devendo-se ensiná-los a colocar o pênis para baixo. Em um segundo momento, ao urinar em pé, devem ser orientados a acertar o orifício do vaso ou do penico.
A psicóloga Maria Alice – com vasta experiência no universo infantil, tanto no campo da psicoterapia quanto como professora de educação infantil –, acredita que a busca pelo bem estar físico, emocional e intelectual é inato ao ser humano: “Perceber seu organismo e controlá-lo faz parte desse processo. A mudança na alimentação também interfere. Uma coisa é o cocô proveniente do leite materno, outra coisa é o derivado de comida. A própria criança se incomoda, reclama da fralda. Os pais precisam entender que as noções de limite e controle estão aos poucos sendo incorporadas pela criança, ela está aprendendo a prestar atenção em seu corpo. O mesmo acontece com comer e ter saciedade, essa é uma noção que vem mais tarde. É preciso ter paciência.”.
Conduta Social
“Usar o banheiro é uma regra social. A criança vai precisar aprender a fazer a higiene íntima, usar o papel higiênico, lavar as mãos. A colaboração dos pais é importante no auxílio aos recursos para que a criança faça uma passagem mais tranquila. Os atropelos acontecem quando os pais querem fazer pela criança. Não temos como fazer nenhuma experiência de vida por outra pessoa. Passar por essa etapa faz parte da busca por autonomia.”, esclarece a psicóloga Maria Alice.
Como tirar a fralda sem choro
O companheirismo revestido de atenção e carinho é o melhor instrumental que os pais têm para auxiliar seus filhos nessa trajetória. “Quando se é companheiro de alguém – e a criança pode ser um companheiro –, ao compartilhar as experiências, você sabe como ajudar. O melhor que você pode fazer é prestar atenção naquela pessoa que está com você, porque nenhum livro dirá como ela é, só ela pode dizer a você. Tirar a fralda é prestar atenção na criança, é ensinar a regra social: usar o banheiro. Os pais podem auxiliar com recursos (penico, perguntar se a criança deseja ir ao banheiro) para que o filho tenha uma boa experiência.” enfatiza a psicóloga Maria Alice.
Engenharia de gente grande
Julia tem 2 anos e gosta mesmo é de brincar. Esquece que tem de ir ao banheiro, mas se a mãe Carolina Maistro Buesso inventa uma competição, ela sai na frente, chega logo ao vaso, peniquinho, seja o que for, o importante é vencer a brincadeira. Mas isso é durante o dia: “à noite é mais difícil, coloco fralda, está muito frio” relata a mãe. Christianne Alcântara, mãe do João Marcelo narra em seu blog, Coisa de Mãe, a aventura do desfraldamento: “Discretamente, comecei a observar o tempo que ele levava entre um xixi e outro. Eu precisava de um sinal. Ele deu. Depois de um certo tempo sem fazer xixi, no meio da brincadeira, começava a segurar o pênis. Filho, quer fazer xixi? Resposta óbvia: Não. Entendi, depois de algumas observações acuradas, que ele não queria parar a brincadeira e perder tempo fazendo xixi. Tinha todo o sentido. O negócio era continuar brincando. Então lembrei a brincadeira da estátua. A gente grita: Estátua! E fica todo mundo parado. João Marcelo é o único que pode correr, andar, pular e… até fazer xixi!”. As engenhosas mães Carolina e Christianne perceberam que vestir a regra social de fantasia é uma forma de ajudar a entender e controlar o corpo dentro do universo da criança.
Segundo a psicóloga Maria Alice é melhor para a criança começar esse controle durante o dia. É comum sonhar que estamos usando o banheiro, a diferença é que os adultos acordam e vão. Já a criança também vai, mas em sonho. O controle do esfíncter noturno é mais tardio, é comum que ocorram “escapadas” até em crianças maiores.
As crianças são descobridoras do presente, tudo é uma grande novidade: um som, um gesto, uma palavra… Para muitas crianças interromper uma brincadeira para ir ao banheiro significa perder alguma coisa: deixar de rir, correr, imaginar. Por isso, a invenção engenhosa das mães acima é tão eficaz, as crianças aprendem sem “perder nada”.
A psicóloga Maria Alice salienta que “segurar o xixi também é ruim; a criança perceber o que esse retardamento causa no corpo é uma forma de aprendizado”. É importante que os pais esperem os sinais de que a criança está pronta, mas a psicóloga chama atenção para a recusa: “É preciso investigar o motivo pelo qual algumas crianças se recusam a usar o vaso, por vezes a criança prefere sofrer, segurar, ao invés de usar o banheiro. A criança, em seu entendimento, tem algum ganho com isso, “controla alguém”, ou recebe alguma coisa que pensa ser um ganho oriundo da recusa. Se apesar das tentativas os pais não conseguirem alterar o comportamento, é hora de procurar ajuda especializada.”.
Esticaram meu bebê
É comum os pais reclamarem da velocidade do tempo, que tudo passa muito rápido e quando veem os filhos já “criaram asas e voaram”. A psicóloga Maria Alice questiona: “Quem faz as coisas andarem rápido? Nós. Eu quero ter um filho, quero curtir, mas quero ter pouco trabalho, quero que ele seja independente cada vez mais cedo. Ele precisa ser educado, e isso leva tempo. As pessoas têm tempos diferentes, não são comparáveis, cada criança só pode ser comparável a ela mesma. Estamos falando de tirar a fralda, mas pode ser andar, falar etc. A impaciência pode levar à punição, e não pode haver punição para um aprendizado.”.
Faça do tempo seu aliado. Partilhar as etapas do desenvolvimento de seu filho é uma forma de crescer junto. Assim, ao olhar para trás, não se assustará com uma criança que “no piscar dos olhos” se tornou adulto, verá companheiros que caminham de mãos dadas.




