O nascimento de um filho traz em si inúmeras transformações. Pode-se dizer que as físicas são as menores, sendo que dessas muito se fala. Já as emocionais são pouco abordadas e em geral de forma bastante superficial.
A maneira como a sociedade se organizou e as demandas que se originaram dessa organização cobram da mulher uma retomada quase imediata de sua vida de antes da gravidez: a recuperação do corpo, do tempo livre, do trabalho e da independência. O que transforma o puerpério, momento de crise natural, saudável e esperada, em uma vivência extremamente angustiante.
Dando as costas para o mundo
A mulher fica dividida entre se deixar levar pelos chamados internos: por exemplo, distanciar-se das demandas do mundo e regredir para poder se identificar com o bebê e assim entender e atender de forma suficientemente boa as necessidades dele; ou pelos chamados do mundo: volte, saia, retome e se recupere.
E não são poucos os que cobram dessa maneira a jovem mãe: o mercado de trabalho e sua insana competitividade, a família pouco acolhedora, a artista com corpo escultural 20 dias depois do parto, o marido tão perdido quanto ela na busca e criação desses novos papéis.
Mas o bebê precisa dessa mãe entregue, conectada e instintiva. E, se superadas as pressões, esse também é o desejo da mãe; se não de todas, de uma imensa maioria.
Do rito do parto ao pós-parto: o renascimento de uma nova mulher
Garantir esse apoio é o que de mais importante a família, amigos e profissionais de saúde podem fazer. Dizer para a mulher que é assim mesmo, que dar as costas para o mundo e voltar-se para o filho nesse início é tudo quanto ela precisa, que se sentir perdida, enlouquecida, frágil faz parte do pacote e que a retomada será gradual, mas muitas vezes mais rica e interessante.
Aproveitando a proximidade com a data fica óbvia a analogia: a Páscoa como símbolo de renascimento é precedida por uma paixão, sofrida e dolorosa, de encontros com aspectos obscuros e inconscientes que quando elaborados podem emergir numa redentora ressurreição.
Assim também é a maternidade, que tem no rito do parto um belo exemplo de paixão, ou via-crúcis, não só nas dores físicas, mas no contato com o medo, o abandono, a esperança e a força. O pós-parto como a morte, morte da vida de outrora, do papel de filha e fundamentalmente o encontro com o desconhecido. E na descoberta ou construção da identidade materna e encontro com o bebê a ressurreição de uma nova mulher e de uma nova vida encarnada na criança e refletida no olhar materno, que sonha para o filho o infinito.
Essa vivência exige coragem e entrega. Morrer e renascer, enlouquecer e criar; não é fácil, mas com um pouco de apoio é possível. E isso se repetirá inúmeras vezes nessa jornada. Adaptando um clichê, que nem por isso é menos verdadeiro, quando encontrarmos respostas para todas as perguntas, os filhos mudarão as perguntas.
Mariana Laham é psicóloga clínica e profissional de Rolfing, tem como temas de pesquisa a maternidade, a amamentação e a relação mãe/bebê. Atua em consultório particular e faz acompanhamento domiciliar no pós-parto.





