
Quebre a monotonia visual
Outro dia eu estava ajudando uma moça a experimentar algumas faixas de cabelo; ela é branquinha, baixinha, usa sempre cores neutras e sóbrias. E me perguntou, ao provar um lenço: “Mas não fica muito portuguesinha?”. E eu questionei que problema haveria nisso. Eu ri quando ela respondeu algo como “Não sou como você; eu me importo com o que as pessoas pensam”.
Não é a primeira vez que ouço algo do tipo e acho engraçado esse entendimento de que quem se veste de forma um pouco diferente não se importa com o que os outros pensam. Quem disse?
No inverno, não sei se você já reparou, a monotonia visual nas ruas costuma ser muito grande. É um festival de preto que não acaba mais, com um vermelho eventual de uma ou outra alma mais ousada. Aí quando aparece alguém mais diferente, sabe o que acontece? Eu me lembro depois. É uma experiência sensorial; eu vejo e aquilo me diverte, quebra a mesmice. E eu gosto muito quando isso acontece.
Assim, quando resolvo usar um chapéu diferente, ou uma saia com textura e de cor berrante, ou um vestido amarelo com meia roxa e sapato verde (sim, eu já fiz isso, quando ainda nem se falava na tal moda dos “blocos de cor”), não quer dizer que eu esteja nem aí com o que os outros pensam. No máximo, que eu não me importo com o julgamento que possam fazer de mim e, principalmente, que não estou preocupada em ser unanimidade.
É mais ou menos assim: ao fazer isso, sei que vou chamar a atenção. Então já saio preparada para os olhares de estranheza que possam ocorrer. Mas o mais legal é saber que, para muita gente, eu tive aquele papel, de quebrar a monotonia, de ser algo diferente na paisagem. Se dez pessoas repararem na forma como estou me apresentando, talvez só uma ache bacana; as outras possivelmente vão pensar algo como “onde ela pensa que vai desse jeito?”. E se derem risada, olha que legal! Provoquei um sorriso, diverti alguém!
Faça adequações sem perder a diversão
Não estou dizendo que me visto com a intenção de chamar a atenção; a questão é: se acontecer, o que é que tem de mais?
Claro que existem adequações que a gente faz. Não saio para o trabalho em um dia de reunião com o coordenador usando tênis colorido, nem com turbante ou com o cabelo super armado, porque é um momento em que me interessa parecer um pouco mais alinhada e que as minhas ideias chamem a atenção mais do que a minha aparência.
Na verdade, tem dia em que não quero chamar a atenção para coisa nenhuma – os dias frios em que amanheço com cólica e tenho que acordar muito cedo são um bom exemplo; nesses eu quero mais é sair de pijama, mas como não dá, pego a primeira coisa muito confortável que vir pela frente.
No geral, penso que isso é que vale a pena pensar, acho bem importante não deixar de usar, ousar e experimentar por medo. E se parecer portuguesinha? Ou índia, africana, cigana ou lavadeira? O mundo está tão cheio de belas obras e imagens e referências pra gente se inspirar, o que é que tem de mais trazer um pouco delas pra nossa aparência? Particularmente gosto de, às vezes, usar roupas que acentuem a minha origem nordestina; e porque não? Não sou de lá?
Outro dia escrevi no meu blog sobre as inspirações que a gente pode buscar quando vai se vestir. Lá, ressalto quão essencial é o exercício de a gente se olhar no espelho, com honestidade e sob todos os ângulos; aqui, continuo insistindo nisso. Experimentar, misturar, pegar aquela peça sem uso há um tempão e tentar coordenar com algo de agora, arriscar uma cor com a qual não estamos acostumados.
Olhar no espelho e ver se a gente gosta, se estamos nos sentindo seguras, confortáveis e bonitas. E se você estiver se sentindo assim, bota o pé na rua tranquila e não se leve tão a sério. Ser unanimidade não é possível; mas estar feliz com a nossa aparência e se divertir com o exercício de expressão que é o vestir, sim.




