a casa de todos nós

A relação das crianças com a terra

Eu e Fernanda, minha companheira, nos mudamos para a cidade de Itu há pouco mais de um ano. Nossa decisão em sair de São Paulo teve inúmeros motivos. A possibilidade de viver em uma cidade mais calma, com menos trânsito, menos ruído, menos poluição e maior qualidade de vida foi muito importante.

Mas um dos pontos realmente determinantes foi a necessidade de termos mais espaço para nós e nossos gatos, um quintal onde pudéssemos ter terra para plantar, ervas aromáticas para nossa cozinha, flores para embelezar o dia a dia.

Desde que nos mudamos, temos praticado mais técnicas permaculturais. Utilizamos, por exemplo, o resíduo orgânico da cozinha como alimento das minhocas, que geram húmus para os canteiros os quais plantamos parte das hortaliças que consumimos, conseguindo fechar assim um ciclo ainda que no meio urbano.

Há uns 6 meses, minha irmã e meu cunhado vieram nos visitar em Itu. Foi a primeira visita em nossa nova casa. Trouxeram, claro, minha sobrinha Marina de 3 anos. Nós estávamos aguardando essa visita com certa ansiedade e curiosidade, principalmente para ver e sentir a interação de Marina com os bichos e com as plantas.

Fizemos semeadura em sementeiras e ela plantou mudas novas de alface e rúcula nos canteiros, colheu tomates cereja e comeu todos eles! No entanto, um aspecto nos chamou a atenção: a sensação contínua de ela estar com as mãos sujas ao mexer com a terra. O tempo todo queria limpar as mãos; quando fomos ver as minhocas no minhocário então, nem quis chegar muito perto!

Chama a atenção o distanciamento cotidiano das crianças com a terra. A mentalidade urbana nos afasta da terra. Seja pelas calçadas que impermeabilizam o solo e não nos permitem contatar a terra com os pés, pelo hábito de usarmos calçados, que não nos permite nem sequer sentirmos o frescor da grama. As folhas nas calçadas e nos quintais impermeabilizados são sinônimo de sujeira; precisamos varrê-las, pois, na forma como estão, não são mais nutrientes para o solo, já escondido.

Nossas crianças da cidade precisam de “terraterapia”

Os produtos vêm dos supermercados, gôndolas, caixas e bandeijas de isopor. A nossa relação com os alimentos que consumimos não existe mais e a origem dos mesmos fica confusa. A mentalidade urbana artificializa a vida. Nossas crianças precisam de uma religação com a terra, de espaço para correr, brincar e de se “sujar” nela. A terra, elemento, não é sujeira, e sim base da vida, base da nossa nutrição. Nosso solo sagrado que na cidade fica cada vez mais distante.

Plantemos mais, para colhermos mais. Ensinemos o cuidado e a beleza que é contatar a terra, e com ela nutrição e cura que nos proporciona.

Vinícius Madazio é  geógrafo e educador ambiental. Veja mais em colunistas Materna.

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