a casa de todos nós

Educar para a felicidade

Quando educamos para o SER, estamos formando um cidadão; quando educamos para o TER, formamos apenas um consumidor.

O título deste texto é o maior desafio de todos nós, educadores formais ou informais. Fomos nós educados para sermos felizes? Afinal, o que é felicidade? Quem é verdadeiramente feliz na sociedade atual?

A sociedade em que vivemos prega a felicidade vinculada à aquisição e à acumulação de bens materiais. Quanto mais se tem, mais feliz se é. Eu tenho, logo sou. Se não tenho nada, não sou ninguém.

Felicidade a meu ver é estar bem consigo, é se amar, se respeitar, se entender, se conhecer, estar em paz, tudo isso para que possamos estar em harmonia com nossos próximos. A felicidade está dentro de nós, sim, bem lá dentro de cada um e, para atingir esse estágio, só depende de nós.

A felicidade consiste e está contida no ser. Sendo assim, o ter passa a perder o sentido. Se já sou feliz, por que preciso ter isso ou aquilo? Que diferença de fato me fará?

O desafio para nós todos é saber se estamos efetivamente educando para o ser ou para o ter. Que exemplo deixaremos às nossas futuras gerações?

Todos nós temos essas duas facetas. Porém, nos dias de hoje, as pessoas acabam sendo mais consumidoras do que cidadãs.

O cidadão consumidor se preocupa com o todo, com a noção do que é comum, com o que lhe faz bem à saúde, à saúde dos próximos e à do planeta. O cidadão consumidor compra um produto realmente necessário, que não prejudica ou polui o planeta, que respeita os trabalhadores produtores daquele bem; ou seja, consome com consciência, tem senso crítico para se posicionar com autonomia perante determinada campanha publicitária ou produto.

Já o consumidor cidadão, geralmente não sabe nem por que está comprando algo; ele é basicamente influenciado pela mídia, pelo mercado, e geralmente não se preocupa com o bem-estar do planeta, com as condições de trabalho das pessoas e com a saúde de todos.

As crianças são reflexos da sociedade

As crianças espelham o comportamento dos adultos, dos pais, dos educadores responsáveis por elas. Se não se come saudavelmente em casa, as crianças não estarão adequadamente nutridas. Se o consumo for muito valorizado, teremos crianças focadas em comprar coisas, sejam lá quais forem, para alcançar a felicidade – felicidade conseguida por algo que vem de fora, do ter e não do ser.

Eduquemos então para o ser! Educar para o ser é educar para a felicidade. A verdadeira educação acontece ao desenvolver habilidades para que o ser humano consiga atingir a felicidade com simplicidade, com encantamento. O ser humano precisa ser entendido e desenvolvido como o ser complexo que é, formado pelos corpos físico, mental e espiritual.

Nossa sociedade insiste unicamente no aprendizado pela razão, pelo racional.

Trabalhar desde cedo com a emoção das crianças, ensiná-las a sentir, a chorar, a lidar com o sofrimento e com a alegria como sentimentos integrantes da vida, ensiná-las a lidar com a morte, a interiorizar de fato que somos matéria e espírito. Essas vivências desde a infância são práticas educativas para desenvolver pessoas mais íntegras, completas, plenas de presença e confiança.

Desenvolvamos em nossas crianças a motivação real para buscarem a felicidade que está dentro de nós, não fora, em alguma coisa ou em alguém. Com isso, certamente estaremos poupando alguns anos de terapia na vida futura dos nossos filhos.

Sejamos simples. Consumamos apenas o necessário. Pratiquemos o exercício de sentir, de amar. Como educadores, precisamos dar o exemplo. Podemos falar unicamente daquilo que vivemos, que experienciamos. Fica muito fácil falar e não vivenciar o que se fala; não ser coerente para um educador é deseducar.

Parafraseando Ghandi, “sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo”, busquemos determinadamente a felicidade dentro de nós, para que nossos filhos e netos tenham em quem se inspirar.

Vinícius Madazio é  geógrafo e educador ambiental. Veja mais em colunistas Materna.

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