Viajando grávida


Por Patricia Schleumer

Foi com a ajuda de suas mãos que o seu sobrinho nasceu. Maíra é doula formada pelo Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa) e acompanha gestantes durante a gravidez, o trabalho de parto e o pós-parto. Maíra Duarte é uma mulher com rosto de menina. Tem cabelos cortados rentes à nuca, práticos, para dar conta de uma vida dinâmica e emocionante.

Cheguei a casa dela numa manhã de sol. Enquanto estacionava o carro na acolhedora vila de sobrados, localizada no bairro da Lapa, em São Paulo, Benjamim, de um ano e meio, me olhava da porta segurando um pedaço de pão integral. Mais tarde, fico sabendo que ele foi gerado na Índia.

Quando Maíra ficou grávida de seu primeiro filho ela se perguntava: ─ Como vou fazer?  Meu filho vai nascer, e depois?  Será que não vou mais poder viajar? Não vou mais ter liberdade?

“Por fim, viajei muito mais depois que ele nasceu, mas eu tinha essa dúvida. Achava que um filho pequeno poderia tirar minha liberdade. Depois vi que a gente tem uma tendência a achar que tem necessidades demais quando se tem uma criança, e a necessidade na verdade é o peito para mamar, alguma coisa para a criança se cobrir e vamos que vamos. O importante é a mãe se conectar com ela” explica enquanto dá o peito para o segundo filho.

Voando pela primeira vez

Maíra foi para Bahia de avião, grávida de seis meses do Miguel que hoje tem quatro anos: “Como era a primeira gestação fiquei preocupada, tinha muitas dúvidas, temia que a pressão pudesse prejudicar o bebê, mas viajei porque minha sogra queria me ver grávida”.

Antes da viagem ela passou por uma consulta com sua obstetra que autorizou a viagem sem problemas, mas ela confessa ter sentido que o bebê estava um pouco desconfortável: “ele ficou inquieto, senti que estava diferente de seu padrão normal”.

Mulheres saudáveis e que não tenham histórico médico de alguma condição grave, não têm problemas em um avião com cabine pressurizada. Os especialistas aconselham evitar aviões pequenos, sem pressurização.

No caso de Maíra, deu tudo certo e ela ainda viajou para parir, dessa vez de carro. Miguel nasceu de parto domiciliar, numa casinha de campo, no meio de uma comunidade antroposófica em Botucatu, interior de São Paulo, com ajuda de sua obstetra e parteira.

Curtição na Europa com bebê a tiracolo

Em 2007, quando o Miguel tinha uns 10 meses, Maíra e o marido Gil fizeram as malas e foram para Portugal. “A festa de um aninho do Mig foi numa Quinta, colhemos flores do campo para enfeitar o bolinho. Foi nessa viagem que ele aprendeu a andar” lembra.

O jovem casal foi para terras portuguesas a trabalho, ambos atuam como terapeutas ayurvédicos, e de lá partiram para a festa de casamento de uma das irmãs gêmeas de Maíra, na França: “Fomos para Paris, pegamos um trem para Lenan e depois fomos de carro para uma cidadezinha antiga, rodeada de moinhos, um vilarejo  onde foi o casamento”.

“Imagina esses trâmites com o bebê junto?” Diz Maíra me olhando com seus grandes olhos azuis. “Descobri que o melhor amigo do pai e da mãe nessas horas é o Sling. É só pendurar o bebê e temos as mãos livres para segurar malas, passagens…”

Depois do casamento eles voltaram para conhecer Paris. E assim eles passaram três meses viajando com o Mig pela Europa. Bom exemplo para algumas mulheres que se preocupam em viajar antes de terem filhos e até durante a gravidez, temendo que depois do nascimento algumas aventuras sejam impraticáveis.

Resultado positivo num laboratório de Rishikesh

E ainda não acabou não, em 2008, eles voaram para Índia! Gil estava trabalhando na organização da viagem e na tradução de um curso de Ayurveda, um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade, desenvolvido na Índia a cerca de sete mil anos. Maíra aproveitou e fez uma especialização em cuidados ayurvédicos com gestantes.

─ Quer desenhar Ben? Maíra pergunta para o segundo filho, hoje com um ano e nove meses, que foi gerado nessa viagem e que acompanhou toda a nossa entrevista se entretendo sozinho, comendo bolo de banana sem açúcar, suco de uva orgânico e maçã, sem choramingar.

Na Índia eles tiraram um mês e meio de férias: “Foi incrível! Foi a primeira vez que tivemos férias juntos, depois de trabalharmos loucamente e ter um filho” revela Maíra com um entusiasmo tão vivo que cheguei a imaginar a família se banhando no Ganges, o rio considerado sagrado para os hindus que o veneram na forma da deusa Maa Ganga (Mãe Ganges). Ele nasce no Himalaya ocidental e depois de percorrer 2510 km deságua no Golfo de Bengala, no Oceano Índico. “Em Rishikesh nós meditamos, fizemos Yoga, passamos por uma iniciação espiritual, nos cuidamos mesmo e namoramos tanto que fizemos outro filho”.

O exame que confirmou a gravidez foi feito em um laboratório indiano, em Rishikesh.

“Imagina, né? A maior confusão!” Conta sorrindo com um bom humor imprescindível para uma aventura dessas.

O primeiro ultrassom em Portugal

Da Índia, a família, agora com mais um no “forninho”, voltou para Portugal, onde muito trabalho esperava pelo papai, afinal ele já se preparava para trabalhar dobrado! “Acabei fazendo o primeiro ultrassom e o pré-natal lá, mas sempre mantendo contato com a minha obstetra de São Paulo”.

Nesse voo Maíra estava com dois meses e meiode gestação. Os especialistas dizem que o melhor período para viajar de avião é durante o segundo trimestre (quarto, quinto e sexto mês). No caso, ela não teve escolha, precisava voar, falou com sua obstetra que acompanhava os exames e se sentiu segura.

Os médicos afirmam que a partir da 12ª semana há menos risco de aborto e a fase dos enjoos, mais comum no início da gestação, já passou. Maíra não teve enjoo. A família passou alguns dias no Porto e depois partiu para Lisboa, onde ficaram mais cinco longos meses.

“Não foi fácil”. Ela confessa. “Grávida a gente fica muito sensível, o Porto é uma cidade antiga, eu morava num apartamento que tinha uns 400 anos, na planta original não tinha nem banheiro, estava longe de todo mundo; eu sabia tudo sobre gestação e não deu para pôr nem a metade em prática. Estava sozinha com um filho pequeno, grávida, meu marido trabalhava muito, enfim, não foi fácil não.”

Voltando com um “barrigão” para o Brasil

Quando Maíra saiu da velha metrópole para pisar novamente no Brasil estava com quase sete meses de gestação.

Benjamim nasceu de parto domiciliar em São Paulo. Deu tempo para reformar o banheiro e colocar banheira: “Eu queria que ele nascesse na água, é bem mais tranquilo” afirma com propriedade de doula.

O parto precisou ser induzido lá pela 32ª semana porque ela teve insuficiência placentária. Sua obstetra e parteira fez a manobra necessária e Benjamim nasceu na água como ela desejava. Afinal, foi concebido com a inspiração das águas da deusa Maa Ganga, penso comigo mesma.  “Acredito que essa insuficiência aconteceu por conta de uma gestação muito agitada, eu comia mal, longe de casa, com filho pequeno. Aprendi que na gravidez é preciso respeitar seu feeling, se você está num lugar se sentindo bem, se alimentando bem, ótimo. A gravidez não é doença mesmo, mas é uma situação diferente da normal, a gente está mais sensível, mais frágil, seu corpo está trabalhando por dois. A gestante pode viajar sim, mas é bom ficar um pouco mais tranquila” aconselha no final da nossa entrevista.

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