
Qualquer criança – seja ela chinesa, brasileira, australiana, grega ou marroquina – é capaz de ouvir a mesma variedade de sons quando recém-nascida. Até os 3 meses de idade, os bebês processam diferentes fonemas de maneira muito semelhante, independentemente de sua língua materna. Isso tem sido interpretado como um indicativo da existência de padrões universais de desenvolvimento da audição e do sistema de sons da língua (conhecido como fonologia).
Do ponto de vista neurofisiológico, podemos dizer que o cérebro do bebê no início do desenvolvimento ainda é pouco ou nada especializado, funcionando de forma relativamente genérica para todos os tipos de estímulos sonoros.
O que acontece a partir dos 3 meses?
Embora o bebê tenha o potencial para aprender toda e qualquer língua falada, ele é exposto normalmente a apenas um sistema de sons – o de sua língua materna. Naturalmente, o cérebro do bebê começa a processar os sons de sua língua com mais facilidade e vai perdendo gradualmente a capacidade de processar os sons que não está habituado a ouvir.
A economia do sistema (eliminar as sinapses[1] que não são utilizadas e otimizar as que são estimuladas) confere maior rapidez e eficiência ao processamento dos sons que serão relevantes para que ela venha a aprender a falar! Ou seja, a criança “joga fora” aquilo que lhe parece desnecessário e aprimora as habilidades que lhe são úteis. Ao longo do desenvolvimento, portanto, o cérebro infantil torna-se rápido, econômico e eficiente.
Assim, a criança vai se tornando uma grande especialista em reconhecer os sons da sua própria língua e vai perdendo a capacidade de distinguir as diferenças sutis entre sons que não são relevantes. Quantos brasileiros não tiveram (ou ainda não têm) dificuldade para perceber a diferença entre “sheep” e “ship”, “leave” e “live”? A língua portuguesa não faz distinção entre o “i” longo (de “sheep”) e o “i” curto, mais aberto (de “ship”), ou seja, essa diferença acústica não faz a menor diferença prática em nossa língua, pois não há palavras que contrastam esses sons. O nosso cérebro, portanto, também não aprendeu a diferenciá-los.
Já a distinção entre o “r” e o “l” (por ex.: “caro” e “calo”) é extremamente importante em nossa língua, o que faz com que possamos distinguir facilmente um fonema de outro. Isso não acontece, entretanto, com a língua japonesa, que possui apenas o “r” em seu sistema fonológico e naturalmente trocam o “l” pelo “r” quando falam português.
Felizmente, a especialização do cérebro da criança não impede que ela aprenda aquilo que não foi exposta desde os primeiros dias de vida. O cérebro é “plástico” o bastante para aprender novas informações, mesmo que já tenha eliminado outras sinapses. É justamente por isso que somos capazes de aprender novas informações em qualquer fase da vida, ainda que o aprendizado torne-se mais difícil com o envelhecimento.
Por essa razão, somos todos capazes de aprender uma segunda língua e podemos ser proficientes mesmo que tenhamos iniciado os estudos apenas na idade adulta. No entanto, para a maioria das pessoas, nunca será possível pronunciar os sons de uma segunda língua sem sotaque, a menos que tenham sido expostas a ela nos primeiros anos de vida. Isso ocorre porque conseguimos criar caminhos alternativos para aprender essa língua (plasticidade cerebral), mas a eficiência desses novos caminhos não é exatamente igual. Diferentemente da criança, que absorve naturalmente uma nova língua, o aprendizado para adulto pode exigir mais esforço, treino e motivação.
Marina Puglisi é fonoaudióloga; doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com realização de estágio na University of York. Atualmente, é pós-doutoranda também pela FMUSP. Realiza pesquisas nas áreas de Desenvolvimento Infantil, Linguagem Infantil, Distúrbio Específico de Linguagem, Linguagem e Cognição
[1] Sinapse: nome dado à região de comunicação entre os neurônios. É a região em que são formados novos conhecimentos, novas memórias.




